"Uma história para adultos e crianças"

(Por Leandro Miguel)

 

 

O livro narra a experiência do autor que não aceitava a adoção de crianças e que após tornar-se pai adotivo, por insistência de sua mulher, acabou até por criar uma pequena história infantil para revelar facilmente aos seus filhos que eles eram adotivos.

 

"Introdução"


 

No início, tudo que eu queria era passar adiante uma história infantil que auxiliasse os pais a revelarem a seus filhos a sua condição de adotivos.

Assim, a primeira idéia que me ocorreu foi procurar uma editora que pudesse publicar a história em forma de um livreto com desenhos ilustrativos, destes que a gente encontra até mesmo em alguns bons super mercados.

Entretanto, após algum tempo, eu comecei a achar que a história deveria ser contada pelos pais sem a presença de qualquer desenho, de qualquer livreto, para incentivar a imaginação e conclusão da criança.

Eu entendi que ficaria mais fácil perceber que a história era sobre ela, já que ao ver figuras e desenhos a criança poderia demorar mais para fazer a associação.

Tomada a decisão, restava saber como eu deveria divulgar uma história tão curta que demandaria, no máximo, umas duas páginas escritas.

Passou-me pela cabeça entregá-la, via carta, aos Juizados de Menores de todo o País para que os assistentes sociais pudessem distribuí-la aos pais adotivos, quando da adoção.

Mais tarde comecei a pensar que a história deveria ir além. Ela poderia estimular pessoas que, como eu no início, não aceitam ou não pensam em adoção.

E para esta finalidade ela deveria estar associada, completada com a minha própria experiência, a minha história real.

E foi assim que decidi partir para escrever este livro, que o fiz de forma extremamente preguiçosa por não ser escritor mas apenas estar escritor.

 

Diálogo I


 

Estávamos apenas eu e Gabriel finalizando o nosso jantar.

Rosinha e Amanda já haviam se retirado e estavam no quarto conversando. De repente ele interrompeu o silêncio iniciando o diálogo:

_ Pai?

_ Fala filhão. Respondi automaticamente da mesma forma como sempre fazia.

_ Onde você nasceu?

_ Aqui mesmo nesta cidade, filho. Por quê? Questionei com certa curiosidade.

_ Você é filho da barriga ou do coração? Perguntou-me.

Diante da pergunta, a primeira vez que ela ocorria, respondi naturalmente, mas já com muito interesse no rumo da conversa.

_ Papai é filho da barriga.

_ Mas é melhor ser filho do coração, não é pai? Retrucou.

O tom de sua voz, um tanto triste por constatar que seu pai era diferente dele, parecia ansiar por alguma resposta reconfortante. E ela veio.

_ Sim, filho. É melhor ser filho do coração.

Ouvindo a confirmação Gabriel procurou dar, instintivamente, uma certa diferenciação em seu estado, como normalmente ocorre quando fazemos comparações.

_ É mesmo, né pai. A gente fica todo sujo quando nasce da barriga.

Ao dizer estas palavras fê-lo com uma certa expressão de nojo, como se não fosse bom nascer da barriga mas sim do coração e, por isto, resolvi esclarecer.

_ Não é assim, filho. Você também nasceu de uma barriga como todo mundo. Você teve uma outra mamãe que não pôde ficar com você e nós fomos te buscar lá em ...

_ Isto eu já sei, interrompeu-me para em seguida concluir:

_ Não é isto que é ser adotado?

Aquelas palavras me surpreenderam, e foi com grande alegria que soube que ele já sabia de tudo.

Respondi emocionado:

_ É isto mesmo, filhão! Você é nosso filho adotivo, o nosso filho do coração.

Ele me olhou com um sorriso terno. Levantou-se calado da mesa de jantar, foi para a sala contígua, deitou-se no sofá e iniciou a leitura de um gibi. A conversa terminara.

Eu continuei sentado à mesa por mais alguns momentos, olhando para ele e o admirando mais ainda.

Era uma noite de Dezembro de 93, às vésperas do Natal, e foi o grande presente que ele, aos 7 anos de idade, acabava de me dar.

 

Filhos do Coração

1a Parte

" Uma história para adultos"

 

I - A Barreira


 

Era mais uma daquelas tardes monótonas de sábado e que custam a passar. Meus olhos, presos num ponto qualquer da paisagem que se avistava da janela de nosso apartamento, vez por outra moviam-se em direção ao interior da sala procurando em vão o seu olhar.

Tínhamos feito algumas coisas na parte da manhã, dado uma volta para distrair, comer alguma coisa mas, agora, o tédio havia se instalado mais uma vez.

Deitada, imóvel no sofá, voando com seus pensamentos, olhar fixo no teto, estava Rosinha. Calada e angustiada e, assim como eu, sequer prestando atenção na desinteressante programação da televisão, mestra em tornar mais aborrecidos os nossos fins de semana; tinha seus pensamentos voltados para aquele velho e conhecido assunto. Eu sabia.

Ele tinha se tornado uma espécie de obsessão nos últimos tempos.

Eu procurava evitá-lo e, sempre que podia, fugia dele através de recursos como puxar uma conversa diferente, fazer uma fofoca, um convite, ou não sei mais o quê.

Torcia naquele momento para que, de repente, algo de novo e interessante surgisse na "telinha" e a tirasse daquele estado de prostração em que se encontrava. Era querer demais daquela "mesmice televisiva".

Como não pudesse mais suportar a situação, arrisquei:

_ Vamos na casa dos meus pais?

_ Não! Não quero. Balbuciou estas palavras e voltou para seus pensamentos, deixando-me frustrado.

De pé, ainda defronte a janela, eu pensava no que poderia fazer para modificar aquele estado de coisas. Ansiava por algo inesperado, talvez a visita de seus pais que moravam no interior do Estado, ou de uma vizinha; talvez uma chuva com vendaval ou qualquer outra coisa, mas nada acontecia.

Quando parecia que o silêncio iria se prolongar indefinidamente surgiu, de repente, aquela pergunta indesejável:

_ Lê? (Era como me chamava).

_ Sim? Respondi prontamente.

_ Vamos buscar uma criança?

Saco! Pensei comigo mesmo. Ela já sabia a minha opinião mas vivia insistindo em algo que eu não queria, e o que eu não queria era um filho adotivo.

Mantive-me calmo. Respirei fundo.

Voltei-me para o interior da sala e caminhei para junto dela. Sentei-me na beirada do sofá, num pequeno espaço próximo à sua cintura, e num movimento de vai e vem passei a acariciar-lhe os cabelos.

Olhei para os seus olhos, esbocei aquele leve sorriso do "você não tem jeito mesmo" e, como num replay que vinha se repetindo a tempos, disse-lhe:

_ Benzinho! Você sabe que eu não gostaria de um filho adotivo. Eu acho que não iria me adaptar. Você vai conseguir engravidar. É só parar de encucar. Vamos aguardar mais um pouco.

Eu tentava não ser ríspido e usava expressões do tipo "acho que não", o que de certa forma acalentava dentro dela a esperança de que um dia eu cederia.

Foram inúmeras as vezes em que eu havia me posicionado daquela forma. Apesar da insistência de Rosinha quanto à adoção, eu achava a idéia inaceitável. Filho para mim tinha que ter a nossa cara, o nosso sangue.

Eu tinha um certo preconceito da adoção. Não tinha certeza nem mesmo se queria filhos. Lembro-me que achava as crianças muito aborrecidas e sem graça. Davam muito trabalho e eu não sabia lidar com elas. Se não tinha certeza de querer meus próprios filhos, o que dizer sobre os filhos dos outros.

Aproximando-nos dos cinco anos de casamento, já tínhamos passado por muitos especialistas e dezenas de exames, aos quais também havia me submetido.

A resposta era sempre a mesma:

_ Não há causa aparente para o fato de Rosinha não engravidar.

Este era o tipo de resposta que eu não aceitava e que considerava conveniente para os médicos.

Eu não conseguia entender o que se passava e acreditava, sem sombra de dúvidas, naquilo que nunca iria ocorrer, ou seja, que um dia Rosinha engravidaria. Apesar das minhas dúvidas sobre ter ou não filhos, no fundo eu sabia que com o passar do tempo o casamento sem eles poderia piorar a nossa relação, e tenderia a uma convivência aborrecida.

As crises existenciais da Rosinha eram cada vez mais freqüentes nesta época e se agravavam sempre que alguma conhecida ou vizinha dava à luz.

Várias vezes a encontrava com aquele olhar distante e quando perguntada sobre o que estava acontecendo limitava-se a dizer:

_ Não é nada não.

Perguntava porque ansiava que fosse outra a razão de sua infelicidade, mas aquela resposta dava a certeza de que se tratava do velho motivo.

Sinceramente eu não tinha mais paciência para confortá-la, já que o assunto me aborrecia sobremaneira e chocava de frente com as minhas convicções.

Talvez por sabê-lo, ela muitas vezes limitava-se a este tipo de resposta.

Eu não sei bem o que acontece, mas em geral, na minha opinião, as mulheres são seres muito mais complexos que nós homens.

Já o são fisicamente e em termos de pensamento, comportamento, psicologia, etc, nem sei o que dizer.

Difícil para nós homens, normalmente mais racionais que emocionais, entendermos o que se passa com elas, e há quem diga até que nem mesmo elas saibam.

O que dá para sentir é que elas são seres mais angustiados e que vivem em maior ansiedade; talvez até porque nós homens não tenhamos a capacidade de preencher alguns espaços de suas vidas tão complicadas para nós.

Eu tenho profunda admiração por sua força de vontade, sua capacidade de superação, e vejo que, nas horas mais difíceis, são elas que não deixam o barco afundar.

Não sou psicólogo, apenas um observador.

Penso que as mulheres por serem, em sua maioria, mais românticas e sonhadoras com o final feliz, apostam muito no relacionamento a dois e esperam que tudo vá caminhar de acordo com seus sonhos.

Infelizmente, as dificuldades do dia a dia, principalmente as de ordem financeira, fazem com que numa sociedade capitalista e consumista o seu "happy end" comece a se distanciar, a despeito de sua luta incansável ao lado do parceiro.

Creio, então, que apesar dela encorajar o parceiro na busca de uma melhoria na qualidade da vida familiar, a mulher em geral, numa sociedade machista, é coadjuvante e fica na expectativa das coisas melhorarem.

Assim, envolvida na rotina do lar e com pouco podendo fazer para o lado da ascensão sócio-econômica, a mulher se angustia mais facilmente quando verifica que o progresso familiar ou é inexistente ou muito lento.

Este discurso serve apenas para constatar que, ainda que a presença dos filhos acabe por limitar ainda mais a sua ação no sentido do bem-estar material, eles também acabam por atenuar este sentimento de frustração e angústia preenchendo o seu tempo e muitas lacunas de sua vida.

Claro está que a sociedade vem se modificando e a mulher, na sua luta eterna, está conseguindo conciliar um trabalho, para a melhoria da vida e realização pessoal, com uma das principais razões de sua existência qual seja o preenchimento do instinto da maternidade, a formação de uma família com a presença dos filhos.

Para muitas mulheres os filhos são a maior razão da vida. Rosinha, nos anos do início do casamento sem filhos, não se mostrou muito envolvida com o seu trabalho, que para ela, com exceção do tempo em que estive desempregado, constituia-se em algo secundário já que seu objetivo principal era a presença dos filhos.

Só após a existência deles é que seus pensamentos começaram a se voltar para o lado de uma realização profissional.

Rosinha não me deu tréguas quanto à questão da adoção de filhos e, apesar de minha relutância, a barreira acabaria por desmoronar.

No fundo ela sabia disto.

 

 

 

Quando adolescente eu costumava me afastar rapidamente das crianças.

Não as queria por perto.

Lembro-me que achava extremamente feias,

até defeituosas, as crianças que usavam óculos e botas ortopédicas.

Dizia a mim mesmo que jamais teria um filho assim.

Gabriel, meu filho, usaria óculos com tapa-olho e

as tais botas que eu, de vez em quando, engraxaria

com grande dedicação."

 

II - A Fonte


 

 

Fevereiro de 1986. Em férias do trabalho decidimos fazer uma excursão ao sul do país através destas companhias especializadas.

Foram um total de onze dias de intensa alegria, visitando inúmeras cidades e lugares bonitos e agradáveis.

A excursão, saindo de São Paulo, tinha como primeiro ponto de parada, assim como último, já no retorno, a linda cidade de Curitiba pela qual tenho um amor platônico, já que nunca residi por lá.

Nesta época já sabíamos que se tratava da capital brasileira da adoção, o que era bastante enfatizado nos comentários de Rosinha durante a viagem. Eu me limitava a ouví-los, às vezes em silêncio, às vezes com algum breve e frio comentário procurando encurtar o assunto.

Por ocasião do retorno da excursão, com a última parada em Curitiba, o grupo de turistas foi conduzido a um jantar no restaurante "Veneza", no bairro de Santa Felicidade.

Tivemos uma noite muito alegre e divertida, com música e dança e com o restaurante lotado por outros grupos de turistas.

Até mesmo num improvisado "karaokê" tive a oportunidade de demonstrar minhas pequenas habilidades musicais como cantor e até que o pessoal gostou.

O jantar transcorria num clima de "festa" e, em determinado instante, Rosinha convidou a nos retirarmos para visitar o lado externo do restaurante, onde até mesmo algumas lojas mantinham-se abertas.

Um lugar muito bonito em uma noite agradável sem preocupações.

Caminhávamos, parando aqui e ali, observando algumas coisas quando de repente, para minha surpresa, lá estava ela, a "fonte dos desejos" da qual já tínhamos ouvido falar.

Hoje eu me pergunto se o convite para aquele passeio já não seria com o objetivo de encontrar a tal fonte pois, não preciso nem dizer, Rosinha quis lançar moedas, a partir de uma plataforma lá existente, em direção aos seus pratos.

Sim, a fonte era formada por três pratos sendo um grande na base, um médio no meio e um pequeno prato no topo.

Dizia a lenda que você poderia lançar três moedas e que, dependendo do prato em que ela caisse, o seu desejo seria realizado em um determinado tempo.

Assim, o prato menor e mais difícil garantiria a realização do desejo em menos de um ano, e foi exatamente neste que a Rosinha acertou a primeira moeda lançada da plataforma.

O desejo não deveria ser revelado mas nem precisava, eu já sabia.

Ela ficou muito feliz em ter acertado. Abraçou-me fortemente, beijou-me e disse:

_ Eu te amo.

Particularmente achei graça daquilo já que não acredito nestas coisas, assim como em promessas, santos, etc.

Eu acredito é na fé e entendo que cada pessoa utilize um meio, um instrumento para canalizá-la, seja numa promessa, num santo, num despacho e assim por diante. No fundo a pessoa passa a acreditar que uma imagem, uma promessa tenha o poder de realizar algo, quando na verdade é a sua fé que verdadeiramente realiza.

No nosso caso a fé da Rosinha foi tanta que, por incrível que pareça, seu desejo se realizaria em seis meses.

 

 

III - Curitiba


 

Estávamos em Março de 1986. Precisamente no dia 07 nasceu um menino chamado Guilherme, filho de Edson e Silmara, um casal muito próximo a nós por laços de amizade, e que residia no mesmo prédio em que nós morávamos.

Com o surgimento do Guilherme as coisas acabaram se precipitando, já que a Rosinha caiu em profunda depressão. Afinal, uma de suas grandes amigas tivera seu primeiro filho e ela não. Muitas vezes, diante de mim, ela perguntava a Deus, em prantos, porque não podia ser mãe e que tipo de mal havia cometido para merecer tal castigo.

Parecia um zumbi perambulando pela casa, realizando seus afazeres de forma mecânica, soluçando pelos cantos, limitando-se a responder às minhas perguntas mas sem delongas, evitando com isto qualquer tipo de conversa.

Em um dos sábados à tarde, ainda no transcorrer do mês de março, deitada no sofá, ela acabou desabafando:

_ Lê?

_ Sim? Respondi.

_ Vamos adotar um filho?

Sua voz era baixa e muito triste. Carregava um tom de súplica acompanhado de um par de olhos avermelhados.

Era mais que um pedido, era a solicitação da alma de uma mulher em seu maior desejo de realização, e mesmo assim:

_ De novo, bem? De novo isto?

Mais uma vez a minha resposta se iniciou negativamente e em tom de irritação.

Reconheço que são muitas as vezes em que me porto de maneira fria magoando aqueles que me amam ou me querem bem, mas neste caso entendo até que estava indo longe demais.

Calei-me e esperei que ela fizesse o mesmo, desistindo mais uma vez, mas após um breve silêncio ela continuou:

_ Eu não agüento mais Lê. Por favor... me ajuda...

Estas frases foram balbuciadas entre soluços e pranto e representavam o seu último desabafo, o seu último pedido. Era o "botar p'ra fora" de todos os sentimentos presos durante aqueles anos de tentativas inúteis para engravidar, e obter um filho, e também de todo o seu desespero causado pelas minhas intermináveis negativas a seus pedidos.

Pude sentir dentro de mim aquelas palavras, palavras que tiveram um poder tão grande que me fizeram compreender, finalmente, que a minha vontade não poderia mais prevalecer, sob pena de continuar vivendo com uma pessoa sem razão de viver.

Aproximei-me dela, olhei seu rosto avermelhado, esperei alguns segundos e então:

_ Tudo bem! Vamos buscar uma criança.

Estas palavras tiveram um efeito mágico.

O pranto aumentou, mas agora de felicidade.

As mãos tentavam em vão enxugar as lágrimas, reacendia o brilho nos olhos e ela não conseguia falar.

Tive vontade de chorar com ela, mas agüentei.

Era um cena incrível e eu, tolo, não quis participar.

Passado aquele momento, e aquele fim de semana, onde ela traçou mil planos para a obtenção do filho tão desejado, vi-me de repente envolvido no processo e, assim, logo na semana seguinte buscava informações que nos levasse na direção tão esperada por Rosinha.

Como já havia dito, sabíamos da fama de Curitiba como a capital brasileira da adoção, e isto nos havia sido passado por um amigo em meu trabalho, Alberto, que testemunhava de perto nossa situação, nossas opiniões diferentes sobre o assunto, e que sempre dava razão à Rosinha além de insistir comigo que os meus pensamentos eram tolos e injustificados. Ele mesmo era pai adotivo.

Foi através de Alberto que iniciei os primeiros contatos telefônicos com o Juizado de Menores de Curitiba e, através das Assistentes Sociais, tomei conhecimento de todos os procedimentos a serem tomados no processo de adoção.

Foi nesta ocasião que eu vi despertar em mim um real interesse pela adoção, motivado pela informação da assistente social de que a criança a ser escolhida, por eles, deveria apresentar características físicas semelhantes ou próximas as dos pais adotivos.

Isto para mim atenuava um certo temor, um certo receio que sentia pela possibilidade de receber uma criança muito diferente de nós.

Esta forma de trabalho desenvolvida por aquele Juizado poderia ocasionar uma certa demora na obtenção da criança, mas me agradava.

Pensava que, já que não podia tê-los que eles ao menos fossem parecidos conosco.

Outros cuidados existiam, como a necessidade de uma entrevista pessoal, a cessão de fotografias do casal para a pesquisa, tempo de casamento (cinco anos), comprovante de rendimentos para a garantia de uma certa estabilidade econômica, etc.

Viajamos para Curitiba em Abril daquele ano, e passamos pelo processo de entrevistas, entrega de fotos e preenchimento de formulários, onde até fomos questionados sobre preferência de idade e sexo do bebê. Tudo ao meu gosto.

Em uma das entrevistas, com a psicóloga do Juizado, que procurava determinar nosso preparo e amadurecimento quanto à questão de filhos, ela nos perguntou sobre nossa intenção de revelar ou não à criança sua verdadeira origem. Nossa intenção sempre foi a de revelar, e esta posição foi bem aceita e aprovada pela psicóloga que, querendo nos auxiliar, orientou-nos para que ao conversar com a criança, na ocasião devida, procurássemos utilizar o termo "filho do coração" em contraposição ao termo "filho da barriga".

Esta fora a primeira vez que havia escutado o termo "filho do coração". Sinceramente, achara-o um tanto "bobo" mas, sem saber naquele momento, ele martelaria minhas idéias num futuro próximo e seria a base deste livro.

Voltamos para São Paulo. Só restava aguardar.

 

 

IV - Semelhança ou Não


 

Por muitas vezes pensei se deveria ou não tratar deste assunto no livro. Finalmente, seguindo um conselho de meu pai de que devemos ser fiéis às nossas idéias e pensamentos, procurando exprimí-los sem temer ferir suscetibilidades, decidi passar para o papel este importante capítulo, ocorrido durante o processo de adoção.

Ele é delicado, complexo e de difícil sintetização, merecendo livros e mais livros que possam retratá-lo de forma mais completa e não apenas num breve relato.

Ele está relacionado a formas de preconceito, de pré-condições; e daí a minha relutância em abordá-lo sem ser alvo de críticas e objeções.

Seja o que for, lá vou eu.

Existe uma definição muito comum na sociedade de que a adoção é um ato de amor. É um ato desprendido de qualquer forma de preconceito, de sentimentos menores, isento de pré-condições e que contém alto espírito de devoção, compreensão, entrega e tudo que possa estar relacionado com a grandiosidade do sentimento humano.

Dizem alguns que, se você tiver preocupações desta ordem, relacionadas a preconceitos, é bem melhor tentar resolver os problemas de gravidez do casal, ou partir para a companhia de cães e gatos, do que fazer a adoção de uma criança. É mais correto.

Verdade seja dita que eu não tinha nenhuma intenção em adotar uma criança, mas acabei sendo vencido pela perseverança da minha mulher. Mas isto não me isenta.

Eu sempre admirei, como admiro, a grandiosidade das pessoas que praticam a adoção no sentido mais verdadeiro, ou seja, um ato de amor desprendido.

Aquele filme da "senhora" que, contra tudo e contra todos adotou uma criança deficiente, cega e com paralisia cerebral, é um exemplo fabuloso deste amor.

Ela era a única que realmente acreditava nas possibilidades de seu "filho" vencer uma barreira praticamente intransponível e se tornar uma pessoa integrada à sociedade. Ao final ela foi recompensada ao flagrar, em uma certa madrugada, seu filho, já adulto, tocando piano.

É um filme comovente mas que me faz sentir o quão pequeno eu sou com a pequenez de meus sentimentos, e longe de me tornar um ser melhor.

Há muitos exemplos deste invejável desprendimento, principalmente entre as pessoas mais humildes, como já pude observar. Por outro lado eu me questionava que, se a verdadeira adoção é este ato de amor desprendido por que então havia Juizados, no sul do país, que se preocupavam em entregar aos pais adotivos crianças normais e com as características de semelhança física com os mesmos? A preocupação com a situação econômica dos pais, o preparo psicológico, enfim um processo dirigido de adoção, algo bem pragmático?

Pelo que pude apurar, na época, os brasileiros que se dirigiam àquele juizado de Curitiba optavam por esta, digamos, "adoção dirigida" e, se possível, por uma criança recém-nascida. Já os estrangeiros tinham preferência por crianças mais velhas e independente de suas características físicas.

Por quê isso ocorria, se os estrangeiros eram mais desprendidos, e nós mais preconceituosos, ou se desejávamos que as adoções se aproximassem da naturalidade, ou ainda se por ter um recém-nascido seria fácil não lhe revelar sua identidade, enfim, era difícil de se saber mas, apesar de sempre me incomodar com tudo isto, aliviava minha consciência verificar que muitos eram "pequenos" como eu. Explica mas não justifica, como dizem os militares, mas é certo que existem coisas que são marcadas a ferro e a fogo em nossas mentes e contra as quais é difícil lutar.

Parece-me felizmente que, ao contrário de muitos de minha geração (anos 50), as gerações atuais sejam mais desprendidas e menos preconceituosas, o que será bem melhor para todos.

Entretanto, o fato era que eu, na minha concepção, queria uma criança recém-nascida normal e branca. Eram pré-condições e até preconceitos impostos, mas naturalmente aceitos no processo.

Qualquer situação diferente desta não seria bem vinda e, provavelmente, inviabilizaria a adoção, de minha parte. Aquelas condições faziam-me aceitar melhor uma adoção, já que eu não era forte como aquela senhora do filme e tantas outras pessoas.

Semelhança ou não. Alguém parecido ou não conosco.

Cada um tem suas razões em uma adoção e, quando as coloco como razões menores, sentimentos pequenos, não quero aqui condenar ninguém mas apenas procurar dar uma contribuição no sentido de uma análise mais profunda da questão por parte das pessoas.

O "Por quê adotar" também traz algumas razões passíveis de análise. Alguns partem para a adoção para promover a substituição de um filho perdido, alguns porque querem especificamente um filho ou uma filha, outros porque querem ajudar uma pessoa, fazendo adoção mesmo após já terem filhos, outros ainda que fazem a adoção mas não colocam seus filhos adotivos como herdeiros, etc. Não sei dizer qual deveria ser a razão de uma adoção, a verdadeira, a mais nobre e nem sei ao certo se é tão importante assim.

Importante é a adoção em si que, na prática, ajuda a resolver problemas sociais e também questões conjugais por se tratar de elemento integrador da família. Os motivos, pequenos ou não, condenáveis por uns, aplaudidos por outros, devem ser objeto de análise individual.

Ainda com relação à questão da 'adoção dirigida', onde a preocupação com as características físicas é levada em consideração, não saberia precisar se ela é legal já que pode ser interpretada como uma forma de discriminação. Mas, enfim, uma grande parcela dos pais adotivos quer e sente deste jeito.

Certa vez, participando de um encontro na Associação de Pais Adotivos de Campinas, interior de São Paulo, muitos casais, com mais experiência que nós, disseram coisas em comum que, de uma certa forma, nos fez concluir que talvez uma 'adoção dirigida' não seja tão condenável.

Questionados sobre o sentimento e comportamento dos filhos adotivos, conscientes de sua situação, os depoimentos foram bastante semelhantes.

Parece que, apesar de aceitarem bem o fato e de vez em quando fazerem perguntas alusivas, muitos procuravam esconder sua situação junto a terceiros, enquanto que outros a aceitavam muito bem e sentiam até um certo orgulho em revelar.

Este encontro se deu um pouco antes de adotarmos nosso segundo filho, ou melhor, uma filha, e me deu uma certa paz de consciência em optar novamente por uma 'adoção dirigida'.

Pude concluir na ocasião que, se meus filhos tivessem traços muito diferentes, e não fosse da sua vontade revelar a terceiros sua condição, ela já estaria revelada e, talvez, tornando-se para eles algo que deveriam administrar para sempre em suas vidas.

Assim, pensei em dar a eles a opção de revelar ou não sua condição de adotivos e, para isto, eles deveriam parecer fisicamente conosco.

Tenha certeza, entretanto, que você amará seu filho adotivo seja qual for sua aparência, semelhante à sua ou não, mas vivemos em sociedade e estas questões de ordem prática devem ser analisadas individualmente, cada qual com sua maneira, sua forma de pensar, mas principalmente de amar.

 

 

Diálogo II


 

Estávamos todos nós na sala e Amanda chorava por qualquer motivo que não me recordo.

Gabriel gostava de vê-la chorar. Era um de seus maiores prazeres.

De repente ele se lembrou de uma história que eu criara sobre uma menina que chorava copiosamente por ter ficado com a boca torta de tanto usar chupeta.

Foi uma história criada para fazer a Amanda largar a chupeta e agora, por ela estar chorando, Gabriel queria que eu a contasse.

Eu recusei alegando não mais me lembrar.

Gabriel prosseguiu:

_ E a história do Papai do Céu, você lembra?

Aquela pergunta misturada com solicitação para contar pegou-me de surpresa. Já fazia tempo que eu não mais contava histórias. Eles já estavam com quase 10 e 8 anos respectivamente.

Assim, ao invés de repetir a história preferi uma indagação para sentir a reação:

_ Lembro. Mas você sabe por quê é que eu contava aquela história?

Seu contentamento dissipou-se quase que instantaneamente, sendo substituído por um ar mais sério e compenetrado.

Com certo aborrecimento respondeu:

_ Eu sei pai. É pra dizer que nós somos adotivos.

Em seguida continuou com uma revelação:

_ Eu não gosto de dizer que sou adotivo. Na escola todo mundo é filho da barriga, menos eu.

Conclui, então, que talvez ele tivesse tocado no assunto com algum amiguinho, como que querendo encontrar alguém na mesma situação que a dele.

Aquele sentimento de querer fazer parte de um grupo, ainda que pequeno. Assim, procurei confortá-lo:

_ Filho! É claro que existem na sua escola outras crianças adotivas que, como você, não gostam de falar ou, pior, não saibam do fato porque os seus pais não lhe contaram. Mas tudo isto não tem importância. O importante é o amor entre nós.

Com estas palavras imaginei que a conversa pudesse se aprofundar permitindo-me observar e saber mais sobre os seus sentimentos. Além disto seria muito útil para a Amanda que a tudo ouvia, podendo tirar as suas próprias conclusões. Mas o diálogo terminaria bruscamente. Retirando-se em direção ao quarto, Gabriel simplesmente limitou-se a dizer:

_ É, mas eu não gosto.

 

Diálogo III


 

Certa vez eu e Gabriel estávamos em seu quarto conversando sobre várias coisas, sobre vídeo-game, escola, quando bateu em mim uma vontade de tocar novamente no assunto.

Eu sempre desejei que ele aceitasse a adoção como algo bem natural, sem barreiras, sem rejeição, sem traumas, daí a minha insistência. Iniciei, então, perguntando-lhe:

_ Filhão, você já falou p’ra algum amiguinho que você é filho adotivo?

_ Eu não, pai. Respondeu-me como sempre, com respostas breves quando o assunto vinha à tona.

_ Por quê? Insisti.

Puxou o ar, enchendo os pulmões, daquele jeito próprio de quem não está gostando da conversa e prosseguiu:

_ É segredo.

_ P’ra nenhum amiguinho, mesmo? Pensei naquela conversa em que ele havia dito que só ele na escola era adotivo, o que me fazia acreditar que algo diferente ocorrera. Vencido pela minha insistência, revelou:

_ Só para um amigo.

_ Por quê? Questionei de bate pronto.

_ Porque ele me disse que também é filho do coração.

Observando a sua chateação, comentei:

_ É! Parece que você não gosta de falar sobre isso.

_ Não, não é isso pai. E após uma breve pausa, o convite:

_ Brinca comigo?

É claro que eu o estava aborrecendo, mas tive uma certa curiosidade e resolvi continuar, sem me importar com o seu convite.

_ Você conversa com sua irmã sobre o assunto?

_ Não! Eu não quero que ela saiba que é do coração.

Aquela resposta provava que ele se incomodava com aquilo.

Provavelmente, no futuro, ele não quereria revelar a sua condição. Não queria, sequer, que a irmã soubesse, que sentisse o que ele sentia.

Talvez desejasse protegê-la de um sentimento que era ruim para ele, de uma mágoa qualquer que não se pode explicar, e nem arrancar-lhes de suas almas diferentes. É provável que nem mesmo eles saibam explicar.

No meu íntimo eu sabia que aquela ‘mágoa’ ficaria, talvez por toda a sua vida, sem se apagar. Percebendo sua angústia disse-lhe então:

_ Filho! Saiba que eu tenho o maior orgulho do fato de você ser adotivo e eu te amo muito.

Ele sorriu e insistiu no convite:

_ Ô pai? Brinca comigo?

 

V - Gabriel


 

Cinco meses se passaram desde nossa ida ao Juizado de Curitiba. Estávamos agora no finalzinho de Agosto de 1.986.

Eu lembro que tinha saído para fazer uma visita a um cliente e, quando retornei ao escritório, já no final do expediente, encontrei Rosinha me esperando para dar a notícia:

_ Lê! Ele chegou, nosso filho chegou.

Seus olhos brilhavam com aquele brilho da felicidade intensa, refletindo sua alma recompensada.

Ela não sabia me dar os detalhes do telefonema recebido do Juizado de Menores, até porque queria contar tudo de uma só vez e se perdia nas explicações.

Minha reação inicial foi um misto de contentamento frio com certa apreensão.

A frieza foi por estar em meio aos demais funcionários da empresa. Rosinha não me chamou reservadamente para falar. Ela não podia conter e explodiu a notícia em minha direção na presença de todos. Era o seu jeito, e todos ali já sabiam das novas.

A apreensão ficava por conta da mudança que aquele fato iria provocar em nossas vidas além, é claro, dos meus antigos sentimentos em relação à adoção.

Aquela notícia era aguardada a qualquer momento, mas no meu íntimo parecia algo que não ocorreria. Eu não estava preparado para aquilo. O tempo havia passado e eu já não estava tão ligado mais ao assunto.

A barriga que havia crescido, gerando aquela criança que seria nossa, não teve seu lento processo de crescimento acompanhado e preparando você para um fato novo que iria transformar tudo. Mesmo a compra do enxoval, que ocorrera um mês após nosso retorno de Curitiba não servira de alarme, como etapa de evolução dos acontecimentos.

O filho adotivo surgira de repente e me pegara desprevenido.

Existem processos de adoção, como já observei em filmes, em que o casal interessado acompanha o período de gestação da mulher que cederá a criança, ou parte deste período. Particularmente não gosto desta forma, deste envolvimento das partes, mas com certeza este procedimento prepara melhor o casal para a adoção, em especial, do primeiro filho.

Rosinha compreendia tudo, aceitava e passava por cima das minhas faltas. Ela estava preparada e superaria, ainda, outras dificuldades de minha parte que estavam por vir.

Não é preciso dizer que a nossa viagem à Curitiba foi imediata. Hospedamos-nos na casa de Márcio e Bel, parentes da Rosinha, e na manhã seguinte ao dia de nossa chegada fomos ao Juizado.

A expectativa era muito grande para conhecer o novo membro de nossa família e aumentava com tempos de espera, preenchimento de documentos e outras formalidades que antecipavam o grande momento.

Já a viagem e a noite de sono tinham parecido infindáveis para Rosinha, que aguardava com muita ansiedade a manhã do novo dia.

Finalmente, após a burocracia, tivemos que nos dirigir a um outro endereço, local onde ficavam hospedadas as crianças para adoção.

Adentramos a sala de espera de uma grande casa que, pelo aspecto e algumas revistas especializadas colocadas sobre um móvel, pareceu-me tratar-se de alguma instituição religiosa.

Identificamos-nos para a recepcionista, entregamos alguns papéis oriundos do Juizado e fomos convidados a aguardar.

Estávamos acompanhados por Márcio que nos ciceroneava e conversava bastante enquanto esperávamos.

Eu procurava dar atenção mas me sentia estranho e nervoso aguardando o desfecho de tudo aquilo.

Mil pensamentos passavam pela cabeça sobre como ele seria, se estaria bem e, principalmente, como seria minha reação assim que o visse.

Já sabíamos, nesta altura, que o bebê seria um menino e para o qual havíamos escolhido um nome. Gabriel.

Gabriel demorava a chegar e fazia aumentar a expectativa. Circulávamos pela grande sala, líamos algumas mensagens afixadas nas paredes.

Não me lembro de nenhuma. De vez em quando observávamos um senhor atrás de uma escrivaninha em uma sala ao lado que fazia pequenos meneios com a cabeça quando os olhares se cruzavam.

Ora sentados, ora em pé. O ambiente era um tanto austero para meu gosto, mas enfim...

Lá vinha uma enfermeira com uma criança no colo, toda coberta. Fazia muito frio. Os passos eram lentos.

Rosinha se antecipou e foi rapidamente ao seu encontro.

Nem sei dizer o que aquilo significava para ela. Tantas coisas haviam acontecido e lá estava ela, vivendo o seu grande momento, vitoriosa.

Com a mão trêmula, Rosinha descobriu o rosto da criança e tomou-a em seus braços.

Seus olhos mais uma vez brilharam intensamente e finalmente, entre lágrimas, ela pôde desabafar:

_ Meu filho adorado, esperado! Mamãe chegou! Eu estou aqui meu amor.

Gostaria de ter sentido naquele momento a mesma emoção que eu senti quando escrevi estas palavras pela primeira vez. Mas isto não ocorreu. Infelizmente.

Márcio, o primo, quis conferir o sexo do bebê e, após abrir a roupinha, exclamou:

_ Mas que molecão sacudo! É homem mesmo!

Com isto, imagino, quisesse quebrar o meu gelo. De minha parte eu vivia aqueles minutos como algo estranho em minha vida. Estava aturdido e aquilo parecia um sonho, uma realidade paralela.

Era comigo que aquilo estava ocorrendo e eu não sabia como agir, não sabia como aceitar, não entendia o fato.

Olhava para a criança procurando semelhanças mas não as encontrava. Era a primeira vez que olhava atentamente para um bebê e o achava esquisito.

Lembro-me de ter achado seus polegares muito largos para um bebê e me incomodei com aquilo.

Este seria meu filho? Era a pergunta que me fazia.

Rosinha teve que receber algumas instruções da enfermeira e o Gabriel foi passado para o colo do Márcio.

Márcio, já pai de família, segurava-o com experiência, fazia brincadeiras, ria e tentava me fazer segurá-lo sem, entretanto, obter êxito.

Nós já sabíamos que não poderíamos retirar a criança naquele dia, mas sim no próximo. Restavam providências finais.

Por incrível que possa parecer, aquilo me confortava. Não via a hora de me retirar. Haveria um dia mais para pensar, refletir e aceitar.

De fato! Foi tanta conversa a respeito do Gabriel que eu fui apaziguando meu espírito e começava a ver despertar dentro de mim uma certa alegria autêntica.

Dormimos mal, cheios de idéias que dificultavam a chegada do sono.

No dia seguinte, logo cedo, deixamos toda a bagagem pronta para que, assim que finalizássemos o processo, retirássemos o Gabriel e voltássemos para São Paulo.

Após mais alguns trâmites legais no Juizado, dirigimos-nos novamente àquela instituição, onde tivemos que ter uma entrevista com um médico responsável pelas crianças ali residentes.

Numa conversa rápida, o médico confirmou aquilo que havia sido dito no Juizado pela assistente social, ou seja, o Gabriel apresentava um "apgar" baixo (baixa reação a estímulos) mas o que não era motivo de preocupação quanto à sua normalidade.

O que realmente me deixou muito preocupado foi o que ele revelou em seguida.

Gabriel havia nascido com sífilis e, embora já houvesse sido tratado, mereceria acompanhamento até os 2 anos de idade.

Lembro-me de ter pensado um monte de coisas horríveis.

Ele só tinha 33 dias de vida e eu achei que 2 anos seria um tempo muito longo para saber se ele estaria curado.

Naquele momento eu comecei a pensar como alguém que tivesse adquirido uma mercadoria e a recebesse com defeito de fabricação. Passava pela minha cabeça devolver a criança. Eu me perguntava por quê não tinham revelado isto antes?

Será que algum casal já o teria rejeitado por causa desta revelação e, desta vez, decidiram contar só no final com todos os papéis assinados?

Fiquei extremamente aborrecido. Rosinha percebeu e fez algumas perguntas sobre as implicâncias do fato ao que o médico procurou tranqüilizar-nos.

Ainda sob o choque daquela revelação, pegamos o Gabriel e nos retiramos. Márcio mais uma vez nos acompanhava e, vendo minha preocupação, questionou se nós não queríamos saber a opinião de mais um médico. Rosinha jogou a decisão para mim e eu concordei. Márcio nos levou a um hospital muito próximo do local e, com muita habilidade, conseguiu que o Gabriel fosse examinado por um neurologista. Não tivemos que esperar muito.

O médico, daquele tipo sério e firme, após um breve exame em nossa presença, e com base em algumas informações, confirmou que o Gabriel tinha baixo reflexo a estímulos mas que no geral considerava-o normal e não acreditava em seqüelas devido à sua doença.

Eu também já queria acreditar, mas a minha frieza calculava lá, bem dentro de mim que, naquele momento, não tinha importância, já que havia o famoso período da "custódia" que, não sei se disse, é o período de 1 ano em que os pais adotivos e a criança têm para se adaptar.

Neste período você é visitado por assistentes sociais para saber se tudo está correndo bem ou não, tanto com o casal como com a criança. É o período, também, que você tem para decidir se fica em definitivo ou não com ela.

Eu pensava naquilo como um prazo para saber se o Gabriel teria ou não problemas para, a partir disto, poder decidir o que fazer.

É claro que tudo acabou bem. Gabriel superou todas as dificuldades transformando-se em uma criança sadia e normal e eu comprovaria a tolice dos meus pensamentos.

De volta a São Paulo, a reação dos familiares, principalmente a dos avós, foi extremamente favorável e emocionada. Todos nutriram por Gabriel, desde o início, um carinho até excessivo, o que acabou por ensejar um certo ciúme por parte de alguns membros da família que entenderam uma "certa preferência" dos avós pelo neto adotivo. Penso que isto deva ter ocorrido só no início, só um sentimento pela novidade que logo perderia seu efeito junto a todos.

Nesta época, alguns familiares ao saberem de nossa intenção em revelar ao Gabriel que ele era adotivo, posicionaram-se totalmente contrários. Eles não aceitavam.

Nesta época, também, nasceu dentro de mim uma preocupação. Não a preocupação de revelar, já que isto estava decidido, mas sim como, como revelar.

 

 

VI - O Primeiro Ano


 

Não foi nada fácil. Como já disse, este primeiro ano seria o período da custódia e nele tudo poderia ocorrer, até mesmo a devolução do Gabriel, por falta de adaptação ou por falta de condições psicológicas e econômicas que pudessem ser detectadas pelas visitas incertas de assistentes sociais.

A presença dele em nosso convívio quebrava totalmente a rotina da casa e novamente eu passei a sentir que tudo era estranho. Não me acostumava com a idéia de que ele era o meu filho.

Ele era muito novo e chorava demais durante a noite.

Como isto me incomodava sobremaneira, eu me omiti totalmente como pai e passei a me comportar como se ele não estivesse ali, tão perto de mim.

Troquei de quarto. Eles, Gabriel e Rosinha, ficavam no quarto do casal, sozinhos sem nenhuma atenção de minha parte. Isto durou aproximadamente três meses, período em que Rosinha, além de suportar a minha indiferença, passava noites e noites em claro embalando uma criança que não dormia.

Durante o dia ela tentava me fazer aproximar de Gabriel falando sobre ele e me pedindo opiniões disto e daquilo, coisas que eu não entendia e não queria entender.

Obviamente algumas vezes ela estourava e gritava amaldiçoando a tudo e a todos, inclusive o filho.

Mas era da boca para fora, e era uma das formas que ela tinha para tentar acabar com a minha indiferença, me pedir ajuda.

Para piorar, eu gritava também e, em uma destas ocasiões, cheguei a sugerir a devolução do Gabriel como uma boa solução. Nunca esquecerei a enorme tristeza e decepção no semblante de Rosinha ao ouvir as palavras que eu tivera a crueldade de dizer.

Eu não tinha experiência com bebês. Sempre me afastara deles durante toda a minha vida.

Entretanto, isto não justificava o meu comportamento, de maneira que só posso deixar registrado aqui o meu arrependimento e o meu pedido de perdão ao Gabriel e à Rosinha.

Até este triste episódio, a distância que eu mantivera de meu filho fôra grande, mas foi só a partir dele que eu me senti mal, que pude me ver melhor e não gostar do que estava vendo.

Mudei minha atitude. Comecei a pegá-lo no colo, fazê-lo dormir, dar banho, ensaiar trocas de fralda, enfim, participar.

Voltei para o nosso quarto e junto dele.

Apesar de seus choros noturnos, que só cessariam aos 11 meses de idade, e pelos quais eu pagaria também a cota de noites mal dormidas, eu não me importava mais. Afinal eu já o amava. Eu compreendera, finalmente, que ele era o meu filho.

 

 

VII - Reações


 

Como são diversas as reações das pessoas no que se refere às crianças adotivas.

No caso do Gabriel nós não escondíamos o fato dele ser adotivo. Até porque no prédio em que nós morávamos todos os vizinhos sabiam.

Certamente os casais comentavam entre si o fato, tendo em vista que seus filhos, ainda crianças, questionavam a Rosinha quando ela levava o Gabriel ao Play-Ground para brincar.

Rosinha sempre foi boa de resposta, e se as perguntas fossem um tanto quanto inconvenientes revelando discriminação, não havia dúvidas, ela sempre tinha uma boa resposta, como em uma determinada ocasião:

_ Ô tia?

_ Sim? Respondeu Rosinha com o Gabriel no colo e rodeada de crianças.

_ Esse nenê é seu?

_ É, ele é meu filhinho!

_ Mas ele é seu de verdade?

Estas questões incomodavam Rosinha, pelo menos no início quando ela o considerava como nascido dela, tanto era seu amor e devoção. E assim com um tom mais seco procurava encerrar o diálogo:

_ Claro que é.

_ Mas ele não nasceu da sua barriga. Nasceu? Insistiu a criança.

Pelo julgamento de Rosinha havia uma certa perversidade naquela insistência e assim ela não exitou:

_ Ele é diferente de vocês. Eu o escolhi e ele veio p'ra mim.

As palavras "diferente" e "escolhi" ecoaram para as crianças como algo melhor e assim, instantaneamente, provocaram uma reação em cadeia.

_ Minha mãe me escolheu! Gritou uma das crianças.

_ A minha também. Afirmou uma outra.

_ Ô mãe? Você não me escolheu? Lá foi uma delas em direção à mãe, que estava mais distante, buscar uma confirmação.

Outras reações já foram mais positivas e me deixaram muito contente. Foram pessoas, como os padrinhos Nilton e Márcia, como os avós, como alguns vizinhos e os amigos Edson e Silmara, que demonstraram um carinho profundo por nosso filho. Um carinho autêntico, longe de pequenos sentimentos de discriminação ou pena, mas baseado em alegria pura que o ato da adoção causa na maioria das pessoas.

Este sentimento é contagiante e representa uma grande força em torno do casal que adota. É a história do "e viveram felizes para sempre" para um ser que chega de repente, sem avisar, e passa a ser um centro de atenções.

Eu agradeço a estas pessoas que compreenderam bem antes de mim, e também me transmitiram através de seus sentimentos, a beleza de tudo aquilo que ocorrera para uma família que só então se completava.

 

VIII - Fim do Processo


]

O primeiro ano, o da custódia, se passou, e, durante este período, chegamos a receber visitas de assistentes sociais para o acompanhamento do processo. Algumas perguntas e respostas, tudo de maneira bem simples e rápida. Apesar disto sempre senti um certo constrangimento e apreensão, já que os assistentes preenchem relatórios que passam a fazer parte de um histórico que, provavelmente, seguem para a aprovação ou não da adoção.

Tudo correu bem e ao final do período tivemos que retornar à Curitiba para procedermos ao registro definitivo do Gabriel como nosso filho, com a substituição do registro anterior do qual mantive cópia.

Acreditava, como acredito, que este registro anterior, dando conta de seu passado, pertença a ele e lhe deva ser entregue na época devida para o seu conhecimento.

Neste retorno à Curitiba levava algo comigo que me incomodava.

Algumas pessoas que sabiam da adoção me informavam que, se uma mãe que houvesse cedido o filho para adoção se arrependesse mais tarde poderia entrar com um processo para reavê-lo.

Eu combatia esta informação alegando que a mãe natural assinava um termo de "cassação do pátrio poder", ou seja, perdia os direitos sobre o filho e que, portanto, não poderia obtê-lo de volta.

Entretanto, resolvi apresentar esta dúvida ao delegado do Juizado de Menores e para a minha surpresa, na época, ele me confirmou que sim, ou seja, que a mãe natural sempre poderia entrar com este processo mas que, além de ser raro isto ocorrer, haveria também muitas dificuldades para ela obter êxito. Além disto, aos 12 anos de idade, nestes casos, a criança pode até escolher com quem ficar.

Pensei, então, comigo que, se eu soubesse destes fatos, na ocasião, provavelmente não teria feito a adoção.

Hoje analiso que se você faz um processo similar ao nosso, ou seja, com cassação de pátrio poder, sem a mãe natural ficar sabendo quem adotou e com as dificuldades que ela encontraria se quisesse reaver o filho, as possibilidades são bastante remotas dos pais adotivos virem a ter este tipo de problema.

Além do mais as mulheres que cedem seus filhos para adoção, na maioria são mães solteiras, muito carentes, e que quando reconstroem as suas vidas ao lado de outros homens tenderão a esconder o fato.

Uma hipótese, entretanto, que pode suscitar um processo da mãe natural é a possibilidade dela vir a se casar com o pai natural, após a cessão do filho para a adoção, e os dois resolverem reaver o filho.

É obvio que isto é uma conjectura, mas baseada em fatos que nos chegam aos ouvidos.

Um exemplo ruim de processo, ao meu ver, são estas adoções onde os pais adotivos conhecem a mãe natural e vice-versa. Acredito que, nestes casos, a ocorrência de problemas com a adoção seja maior.

Entendo até que os filhos adotivos têm o direito de conhecer quem os gerou, mas quando e se eles quiserem, e no momento certo em que tenham discernimento das coisas. Alguns psicólogos, entretanto, são contra esta experiência que consideram extremamente negativa.

Outro fato que fiquei sabendo, e não sei se já comentei, é que muito embora existam muitas crianças em orfanatos, apenas um pequeno número está habilitado para a adoção.

A mãe natural tem que ter assinado o documento que cassa o seu pátrio poder, sem o qual a criança fica impossibilitada de ser adotada.

Ocorre que muitas mães deixam seus filhos no orfanato prometendo ou pensando voltarem um dia o que, na maioria das vezes, não acontece. O tempo vai passando, as crianças não podem ser adotadas, elas vão crescendo e vendo diminuirem suas chances de encontrar um lar, já que no Brasil a preferência sempre recai nas crianças mais novas.

Diferentemente de nós, muitos estrangeiros preferem crianças mais velhas, mas para eles os processos de adoção são mais complicados e um número maior de crianças fica prejudicado sem mais esta chance.

Os legisladores deveriam pensar em tudo isto e criarem leis mais apropriadas procurando facilitar o ingresso da criança órfã, abandonada, em um lar, brasileiro ou estrangeiro.

Para finalizar este capítulo, gostaria de dizer que este livro, por fazer menções a etapas de um processo de adoção, não deve ser tomado como base por ninguém que queira iniciar o seu processo. Todos os fatos aqui relatados, no que diz respeito ao ato da adoção propriamente dito, ocorreram no Brasil do final dos anos 80 e de lá para cá tudo pode ter mudado e as coisas estarem bem diferentes.

 

 "Em uma noite de Outubro de 1996, com Gabriel aos 10 e Amanda aos 8 anos de idade, fiz-lhes a revelação mais detalhada de seus passados, mostrando-lhes as certidões de nascimento dos primeiros registros, ou seja, antes de serem registrados em nosso nome.

Tudo aconteceu rapidamente naquela noite. Rosinha estava fora. Assistíamos TV e conversávamos alguma coisa relativa a filhos adotivos quando, naturalmente, disse-lhes que mostraria algo muito interessante e importante.

Peguei a pasta de documentos e retirei, em meio à papelada, as certidões de nascimento. Sua curiosidade foi extrema. Eu dava explicações, eles viam seus nomes antes de se chamarem Gabriel e Amanda, viam os nomes das mães naturais, perguntavam por que não havia os nomes dos pais, queriam todos os detalhes. Eu respondia todas as suas dúvidas.

Tudo se passou na mais absoluta naturalidade e em um clima até de alegria que notava em seus rostinhos. Surpreendia-me, pois apesar de serem muito crianças aceitavam bem aqueles fatos.

Pedi-lhes que jamais sentissem ódio por aquelas pessoas e que nunca se esquecessem que nós, Rosinha e eu, podíamos não ser os seus pais naturais mas o éramos espiritualmente por obra de Deus. Portanto éramos os pais verdadeiros.

Satisfeita toda a curiosidade, voltaram-se rapidamente para a TV e se calaram. Eu me vi ajeitando documentos e guardando a pasta de volta a seu lugar."

 

IX - Vítor


 

Gabriel já se aproximava de seu segundo aniversário quando Rosinha começou a pensar em ter mais um filho, entendendo que não seria bom Gabriel ficar sozinho.

A despeito de, no início de nossa vida conjugal termos idealizado quatro filhos, eu já pensava diferente e achava que apenas a presença do Gabriel seria suficiente para preencher nossas vidas.

Trocávamos idéias sobre o assunto, procurando chegar a um consenso, e no fundo eu rejeitava a idéia do segundo filho por achar que eu o discriminaria, não o amando com a mesma intensidade com a qual eu já amava Gabriel.

Hoje me causa espanto este tipo de pensamento. Que idiotice!

Obviamente que cedi mais uma vez, e desta vez com mais facilidade, já que não havia mais a barreira pelo filho adotivo mas apenas a dúvida do amor que eu sentiria.

O caminho do segundo filho iniciou-se também por Curitiba. Encaminhamos a solicitação com documentação e, apesar de aceita, fomos avisados que a obtenção de um novo bebê seria bastante difícil já que os casais sem filho teriam sempre a preferência.

Entendemos a justiça daquele procedimento mas ficamos um tanto quanto desanimados.

Pensamos, então, na procura de outras cidades que tivessem uma ação parecida com Curitiba, ou seja, a pesquisa e entrega de uma criança com características semelhantes à nossa, o que fora combinado entre nós.

Alguém que pudesse passar por irmão do Gabriel pois do contrário poderia atrair a atenção das pessoas para o assunto.

Através de um cliente meu, que trabalhava em São Paulo mas residia em Campinas, a 100 Km de distância, ficamos sabendo da existência naquela cidade de uma Associação de Pais Adotivos comandada por um dentista do local.

Nesta Associação poderíamos obter uma relação de cidades com endereços de Juizados para os quais enviaríamos documentos que nos habilitassem a uma adoção. Eles promoviam uma reunião semanal no horário noturno e para ela fomos convidados quando expusemos, por telefone, o assunto ao dentista.

Assim, numa determinada noite da reunião semanal, dirigimos-nos para lá, para Campinas, na esperança de termos um rápido resultado para os nossos anseios.

Lembro-me que era uma noite chuvosa e que chegamos cedo ao local. Era um salão localizado em uma rua de pouco movimento e me deu a falsa impressão de que nada em especial aconteceria naquela noite.

Aos poucos as pessoas foram chegando até formarem um grupo razoável.

O dentista, com quem gostaria muito de conversar, não pôde comparecer por um problema qualquer que o organizador da reunião citou na abertura mas que, sinceramente, não lembro.

Eu olhava as pessoas, em sua maioria pais adotivos como eu mas com mais vivência, e enxergava pessoas felizes trocando informações e experiências.

Este era o verdadeiro espírito da reunião, mas eu não estava muito interessado em me integrar.

Estava impaciente. Meus pensamentos se concentravam, totalmente, na obtenção da lista que poderia nos auxiliar em nosso intento.

A reunião transcorreu pricipalmente com depoimentos de pais e de filhos adotivos, depoimentos estes que de certa forma deram uma base de sustentação às palavras ditas no capítulo que trata da semelhança física ou não do filho adotivo com os pais.

Por alguns depoimentos ficou evidenciado que há filhos adotivos que não gostam de revelar o fato, o que fica praticamente inviável se ele não tiver alguma semelhança física com os pais, mas sobre isto já foi discorrido no livro.

Com a chegada do final da reunião, Rosinha sob minha pressão agitou-se, e conversando com uns e outros pôde obter a relação que tanto interessava. Eu me sentia constrangido com aquela situação, pois observava que as pessoas estavam ali para conversar sobre relações humanas e sentimentos, ao passo que eu estava ali pensando na lista e interessado em ir embora, preocupado com a chuva...

De volta a São Paulo e de posse da lista, Rosinha enviou cartas e fotos (nossas e do Gabriel) para cerca de quinze cidades do Sul do país, além de incluir também a própria cidade de São Paulo no afã de obter um resultado mais rápido para a busca.

Impressionante foi a rapidez do retorno. Em questão de quinze dias recebemos duas respostas para nossas cartas.

 

A primeira chegou de São Paulo no início de Julho de 1988.

 

Era noite e chovia. Estávamos nós três deitados sobre um colchão jogado na sala, assistindo à TV, quando o telefone tocou.

Era uma assistente social que pedia nosso comparecimento à sua residência, se possível naquela mesma noite, para vermos uma criança candidata a nosso filho.

Achamos estranho que uma criança para adoção estivesse na residência de uma assistente social e não em uma instituição, mas na dúvida resolvemos conferir.

Aprontamos-nos rapidamente e para lá nos dirigimos.

Era um sobrado bonito em uma rua estreita.

Após termos sido atendidos fomos levados a uma sala de estar para aguardar.

Estávamos em uma sala de bom tamanho iluminada apenas por alguns abajures e uma televisão ligada, já que as luzes principais estavam apagadas e, por isto, conferindo ao ambiente uma penumbra que me incomodava.

Havia alguns sofás onde crianças e adolescentes dormiam. Conclui serem filhos do casal que ali residia, ou seja, a assistente e seu marido.

Aguardamos por alguns instantes até que o casal descesse as escadas do sobrado trazendo um "moisés" com uma criança dentro.

O homem acomodou o "moisés" em um espaço livre de um dos sofás e solicitou que nos aproximássemos para ver o bebê. Eu estava um tanto nervoso com o cenário. Não nos era possível identificar direito os traços da criança devido à pouca luz no local.

Era realmente uma situação inusitada e um tanto embaraçosa.

Era um menino que me parecia ser da raça negra e para o que não contive a pergunta:

- Esta criança é branca?

O homem me afirmou categoricamente que sim, mas sucedeu a afirmação com um discurso sobre a adoção ser um ato de amor sem preocupações de idade, sexo e cor.

Contra argumentei com os meus pensamentos sobre a questão da semelhança pois, já que um casal não pode ter seus próprios filhos que eles ao menos sejam parecidos e, portanto, da mesma raça.

Questionei em seguida sobre o processo legal da adoção aos moldes daquele efetuado em Curitiba, com cassação de pátrio poder, etc.

O homem, então, veio com uma informação no mínimo perturbadora:

_ Neste nosso caso não haverá processo. Eu entregarei a você alguns papéis e você poderá registrá-lo imediatamente no nome do casal.

Fiquei muito contrariado e imaginei inúmeras coisas que poderiam me trazer problemas no futuro.

Sempre gostei das coisas certas refutando as duvidosas. Procurei não me manifestar naquele momento mas ganhar tempo para pensar.

Coloquei mais uma vez minha dúvida sobre as características da criança e solicitei autorização para levá-la ao médico, no dia seguinte, para exames de saúde e investigação.

O homem concedeu-me a permissão, mas antecipou que fatalmente eu não ficaria com a criança porque ela não havia me "tocado". Disse-me que as pessoas sentem algo diferente, há uma espécie de identificação imediata, como se um "sininho" tocasse dentro delas assim que vissem na criança aquela que elas desejavam.

O "sininho", segundo ele, não tocara em mim.

Nunca esquecerei aquelas palavras.

No dia seguinte Rosinha e eu apanhamos a criança na residência da assistente social e a levamos ao pediatra do Gabriel, o Dr. Ulisses.

Rosinha achava aquilo tudo uma bobagem de minha parte mas cedia à minha vontade.

Enquanto aguardávamos no consultório a chamada, ela fazia planos para o bebê, e já o aceitara em seu coração de mãe. Até mesmo o nome já havia sido escolhido. Seria Vítor para comemorar a vitória por mais um filho e por ele também ser um vitorioso.

Eu permanecia confuso e esperava por um parecer do médico para tomar a decisão.

Finalmente fomos atendidos pelo sempre solícito e simpático Dr. Ulisses, que após os cumprimentos e já sabendo, antecipadamente por telefone, do que se tratava, qual a intenção daquela consulta, passou a examinar a criança.

Nossa expectativa crescia enquanto o exame transcorria com uma duração que me pareceu demorar mais que o normal. O silêncio tomava conta do ambiente. Após um certo tempo ele encerrava o exame e em conjunto com a Rosinha vestia a criança calmamente, enquanto eu permanecia sentado defronte à sua escrivaninha a observar tudo.

Apesar de demonstrar frieza em minha postura, por dentro eu fervilhava, meu coração se apertava porque uma decisão que envolvia vidas estava para acontecer. Eu, no fundo, torcia para que tudo desse certo.

Rosinha tomou a criança em seus braços e sentou-se ao meu lado.

O Dr. Ulisses, já do outro lado da escrivaninha, passava-me a impressão, em seu semblante, que não sabia bem como começar mas acabou por falar:

_ A criança não é da raça branca. É uma criança morena.

Rosinha fez uma exclamação misto de surpresa e temor pelo que pudesse acontecer. O Dr. Ulisses continuou:

_ Pensem bem no que vocês irão fazer. Esta criança é perfeita, sadia e muito bonita. É um belo bebê. As coisas não acontecem por acaso. Deus colocou esta criança em seu caminho e eu penso que vocês deveriam ficar com ela.

Dr. Ulisses continuava sua explanação e Rosinha me olhava como que querendo saber antecipadamente o que eu faria.

Eu pensava muitas coisas mas principalmente como seria o futuro. Gabriel teria um irmão diferente que não poderia jamais esconder que era adotivo mesmo se quisesse.

Ele mesmo poderia ser questionado se também não era adotivo. Como eles administrariam isto? Com revolta? Como eu administraria? Bastaria o amor que fatalmente eu sentiria por ele?

Preocupavam-me questões de preconceito, curiosidade das pessoas e tudo aquilo que eu carregava dentro de mim e que não conseguia superar naquele momento.

Era impressionante como eu sabia, no fundo, que aquilo iria ocorrer. Era só uma confirmação e eu, na verdade, já tinha minha decisão, mas não imaginava que ela seria tão difícil de se tomar. Era um teste muito duro. Senti-me desprezível mas mesmo assim queria manter minha posição baseada nas então convicções de minha cabeça.

Incomodava-me além do mais a certa "ilegalidade" daquele processo e foi com um nó no peito que anunciei:

_ Nós não vamos ficar com o bebê.

Aquela sentença decepcionou profundamente o Dr. Ulisses que pediu para que eu refletisse melhor. Certamente concluiu que eu era preconceituoso. Não sabia o que eu pensava, que eu e minha família teríamos que conviver com o preconceito da sociedade se Vítor fosse nosso filho. Assim seria o futuro e eu não estava preparado para suportar.

Rosinha chorava baixinho sem nada dizer e não sei com que sorte de pensamentos.

Aquilo me comovia mas mantive a decisão a despeito de tudo.

Levei Rosinha e o bebê de volta ao nosso apartamento pedindo-lhe que tomasse as providências para a devolução. Procurava justificar minha decisão com os velhos e surrados argumentos mas ela permanecia um tanto calada e aturdida com aquela situação inesperada.

Voltei para o trabalho e deixei a missão ingrata para ela. Ao anoitecer, já em casa, ela me relatou os fatos.

Disse-me que telefonou para a assistente social comunicando a decisão. No final da tarde daquele mesmo dia a assistente dirigiu-se até nossa casa e levou o bebê embora.

Segundo ela foi uma despedida difícil e com muitas lágrimas.

Mesmo ao contar os fatos Rosinha emocionou-se novamente e tentava me sensibilizar chamando a atenção para um certo "cheirinho de bebê" que insistia em permanecer no ar.

Eu sinceramente não sentia coisa alguma e para mim tudo estava encerrado.

Naquela semana Rosinha permaneceu telefonando para a assistente social querendo saber notícias da criança da qual não se desligava, o que me aborrecia. Parecia-me que ela desejava o meu arrependimento e, quem sabe, trazer de volta a criança.

Eu permaneci irredutível.

Ao final de alguns dias ela ficou sabendo que ele, o seu Vítor, havia sido adotado por uma mulher de origem alemã mas que, infelizmente, acabou tendo problemas, já que a mãe biológica quis o filho de volta e, ao que parece, teria conseguido.

Assim, pelo lado do processo em si minha decisão pareceu acertada mas pelo outro lado, o lado do sentimento, do amor pelo próximo, da adoção pelo amor desprendido, sinto que meu gesto, minha ação foi condenável.

Não sei o que faria nos dias de hoje, não tenho certeza, até porque a decisão deveria ser compartilhada com nossos filhos que já têm consciência destas coisas.

Espero que Vítor, provavelmente com outro nome, tenha encontrado a felicidade e o amor de seus pais naturais ou adotivos. Boa Sorte, criança!

 

 

Diálogo IV


 

A televisão mostrava uma reportagem sobre uma criança negra adotada por uma mãe branca, mas que estava para perdê-la já que a mãe biológica queria reavê-la.

Nós comentávamos sobre o absurdo daquela situação e defendíamos, obviamente, a mãe adotiva.

De repente o Gabriel me lança aquela pergunta:

_ Você adotaria uma criança negra?

Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Rosinha se antecipou e respondeu por mim:

_ É claro que sim, né Bem?

Ela afirmava em meu lugar, mas aguardava minha confirmação diante dos olhares atentos de Gabriel e Amanda. E ela veio:

_ Hoje em dia creio que sim. E nós a amaríamos do mesmo jeito. É assim que as coisas acontecem. O único problema, resolvi continuar, é que vocês provavelmente não poderiam mais esconder que também são adotivos. As pessoas poderiam concluir e, em alguns casos, até perguntarem. O que você faria? Questionei Gabriel.

_ Eu diria que ele era adotivo. Respondeu-me.

_ Mas e você. O que você diria de você mesmo? Insisti porque percebi que ele fugira da pergunta, ou não a entendera. Mas ele concluiu:

_ Eu diria que não era. Só ele era, mas eu não.

Ele é muito jovem, pensei. Quem sabe se um dia ele mudará e aceitará melhor a sua condição.

 

X - Preconceito


 

"Você só tem preconceito daquilo que não conhece".

 

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Ele seguia à frente. Apressava os passos tentando afastar-se do grupo de meninos que caminhava cerca de 50 metros mais para trás.

Era inútil. O grupo também apertava o passo para manter a mesma distância e continuar a zombaria:

_ Mariquinha! Menininha! Gritavam em coro.

Sim. O menino que ia à frente era conhecido de todos. Afeminado em seu jeito de falar e andar recebia como punição a discriminação do grupo. Continuava seu trajeto sem retrucar.

O caminho era o da escola e aquela cena se repetia todos os dias, naquele horário. Chegava a ser cruel e insuportável.

Um dia, um dos meninos do grupo zombeteiro, e que se sentia incomodado com aquilo, apiedou-se do outro garoto e, separando-se dos demais sob risco de receber a mesma punição, decidiu aproximar-se e caminhar ao lado dele para conversar. Repetiu a ação nos dias seguintes. Passou a conhecê-lo melhor, e acabou por caminhar com ele todos os dias. A piedade transformou-se em amizade e respeito mútuo. O grupo de meninos perdeu a força e acabou por se dissipar.

A amizade, entretanto, foi breve. Aquele menino mudou de cidade e eu me mudei do bairro.

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"O preconceito é um conceito genérico e não individualizado. É um conceito que uma raça tem sobre a outra, de uma sociedade sobre a outra, mas não entre indivíduos de raças e sociedades diferentes que estejam ligados por laços de amizade ou amor."

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A rua era uma ladeira íngreme e a mulher, carregando uma sacola pesada, parou para descansar.

Em frente a ela o homem, seu vizinho e velho conhecido, cuidava do carro com todo esmero que lhe era peculiar. Cumprimentaram-se e iniciaram uma conversação, o que era comum quando se encontravam. Num dado instante o homem, que falava sobre questões de melhoria do bairro e da rua, lançou uma afirmação:

_ Sabe. Para esta rua melhorar teria que mandar todos os negros embora daqui.

Era fato que na rua havia muitas famílias negras, e que aquele homem parecia se incomodar com aquilo.

A mulher, embora perplexa, respondeu calmamente:

_ Então, neste caso, eu também teria que ir embora já que sou negra.

Somente ao ouvir aquelas palavras é que o homem se deu conta do que havia falado.

Entretando, com a maior naturalidade rebateu:

_ Mas a senhora é diferente! A senhora é nossa amiga!

Isso ocorreu há muitos anos atrás e o bairro, assim como a rua, melhoraram.

O homem e a mulher continuaram vizinhos. Foi o que pude constatar, muito tempo depois, em visita à casa de meus pais.

 

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Acho que muitas das minhas atitudes descritas no livro deverão ser analisadas como puro preconceito, eu sei, a despeito das minhas explicações.

Por isto resolvi narrar estes fatos verídicos sobre o assunto.

Gostaria de prestar aqui uma homenagem a alguns de meus maiores amigos:

Massar (origem japonesa) - meu maior amigo no 1o Grau.

Nelson e Celso (origem japonesa) - grandes amigos na Faculdade.

Cícero (negro) - meu maior amigo na Faculdade.

 

XI - Amanda


 

A segunda resposta às nossas cartas de solicitação de adoção veio em seguida.

Cinco ou seis dias após Vítor ter ido embora, eu estava trabalhando quando recebi um telefonema de Rosinha.

Ela estava bastante emocionada pois acabara de receber uma ligação telefônica do Juizado de Menores de uma das cidades em que havíamos nos inscrito, colocando à nossa disposição uma menina para adoção. Na ligação, segundo Rosinha, a assistente social informava que havia despesas de hospital a serem pagas e que se nós aceitássemos a criança deveríamos estar prontos a arcar com elas. Ela antecipou à assistente que tudo bem, que nós aceitaríamos aquelas condições.

Confesso que achei um tanto estranha aquela situação mas mesmo assim decidi aceitar, já que Rosinha ainda se encontrava muito deprimida com a história do Vítor e uma nova criança aplacaria sua tristeza. Resolvi então estabelecer novo contato com a assistente social e procurei me certificar, além da informação sobre as despesas, da origem e condições da criança, uma vez que não gostaria de perder uma viagem tão longa, de São Paulo até aquela cidade.

Lembro-me que achei o tempo de resposta às nossas cartas excessivamente curto. Sabíamos que esta possibilidade, para um casal com filho, seria remota, ou seja, estávamos preparados para uma espera de anos dentro de um processo legal mas, para nossa surpresa, tudo estava ocorrendo rápido demais.

Era uma terça-feira de Julho de 1988 quando a ligação chegou e, após algumas providências de ordem prática, seguimos viagem por ônibus, na quarta-feira à noite, para chegarmos na quinta pela manhã na cidade.

Fazia muito frio e a noite passada no ônibus pareceu-nos interminável.

Assim que desembarcamos sentimos-nos como que meio "zonzos" em função da noite mal dormida e da altitude da cidade.

A primeira providência tomada foi irmos para um hotel pois já sabíamos de antemão que, mesmo que todo o processo corresse bem, só no dia seguinte conseguiríamos finalizá-lo, ou seja, voltar com a criança.

Hospedamos-nos então, tomamos banho e café e resolvemos telefonar para a assistente social.

A entrevista, como também sabíamos, estava marcada para a parte da tarde, mas como nossa ansiedade em ver a criança era grande decidimos pedir a autorização da assistente social para conhecê-la ainda na parte da manhã.

Ela consentiu mas solicitou nossa presença no Juizado antes de irmos ao hospital onde se encontrava a criança.

Assim procedemos. Fomos até o Juizado e lá tivemos uma entrevista preliminar com a assistente.

Nesta entrevista foi-nos confirmada a existência de despesas que deveriam ser pagas a uma médica, que efetuou o parto, e ao próprio hospital com a permanência da criança e o material utilizado.

Pelo que ela nos disse o Juizado não via com bons olhos a existência de despesas hospitalares e entendia que o hospital deveria arcar com elas nos casos de adoção. Em contraposição a direção do hospital entendia que despesas existiam e que, portanto, alguém deveria assumí-las.

Naquele momento aquilo não era o mais importante e, apesar de ser mais simpático à posição do Juizado, não tirava as razões do hospital.

O que interessava mesmo era a criança, saber como era ela, se estava bem e quando a veríamos.

Por alguma razão, durante a entrevista, tive que me ausentar momentâneamente, deixando Rosinha conversando com a assistente.

A conversa que as duas mantiveram foi-me reportada mais tarde, e revelou um fato que iria explicar o porque de nossa carta ter sido respondida tão rapidamente.

Ela explicou à Rosinha que, antes de nós, dois casais haviam sido contactados para aquela adoção, mas que o primeiro deles não aceitou a ligação telefônica a cobrar (procedimento padrão dos Juizados de Menores quando fazem a comunicação) e o segundo não aceitou o fato de existirem despesas a serem pagas.

O mais curioso é que havia ainda um terceiro casal antes de nós, mas a assistente acabou confundindo as fichas e ligando por engano para nós.

Como a Rosinha acabou atendendo a ligação, e sendo impetuosa como ela é, não pensou duas vezes e aceitou as condições.

Finalizada esta primeira entrevista fomos orientados sobre o local exato do hospital e a quem deveríamos procurar.

Tomamos um táxi e para lá nos dirigimos com o coração na mão, com uma ansiedade muito grande e própria para a situação.

Desta vez eu me sentia mais preparado, embora um pensamento idiota permanecesse em minha cabeça: "Será que eu gostaria dela tanto quanto do Gabriel?".

Chegando ao hospital indentificamos-nos, explicamos o motivo de nossa presença e fomos convidados a aguardar.

Mais uma vez tudo se repetia. A ansiedade, o nervosismo, as incertezas e, porque não dizer, uma certa alegria.

Mais uma vez alguém surgia com um "pacotinho de roupa" no colo. Aproximou-se e descobriu um rosto.

Foi para mim uma experiência inédita, para uma pessoa um tanto fria como eu.

Ouvi os tais sinos imediatamente e me apaixonei ao primeiro olhar. Eu a achei incrivelmente linda com aquele cabelinho vermelho, espetado e com aquele narizinho arrebitado.

Rosinha, como não poderia deixar de ser, falava com a criança e chorava de emoção.

Contive minhas lágrimas e me condenei por não ter tido a mesma emoção com o Gabriel.

As circunstâncias eram outras, é bem verdade, eu tive que superar muitas coisas, mas como pude ser tão cego, preocupado com coisas tolas. Assim como ela, Gabriel era apenas mais um ser que esperava ser amado e como demorei para lhe dar este amor que é tão grande. Desculpe-me meu filho!

Ficamos por mais alguns momentos com a criança para, em seguida, retornarmos ao Juizado, não sem antes levantar informações sobre as despesas.

No caminho de volta fomos a pé, já que observamos a pequena distância entre as duas instituições.

Eu não cansava de dizer a Rosinha:

_ Esta menina será nossa custe o que custar. Não importa.

Ela ficou exultante com estas palavras, talvez por não acreditar que pudessem sair de uma pessoa como eu.

No Juizado conversamos mais um pouco com a assistente social e, na saída para o almoço, caminhamos com ela algumas quadras até nos separarmos, comprometendo-nos a retornar na parte da tarde para a entrevista com o Juiz.

Voltamos para o hotel para um rápido almoço onde nos sentíamos muito felizes mas apreensivos por alguma coisa que pudesse sair de errado na tal entrevista. Nada podíamos fazer a não ser cumprir o processo.

Eram aproximadamente 14 horas. Estávamos sentados em uma grande sala, eu, Rosinha e a assistente social.

Aguardávamos a presença do Juiz e me parecia algo muito cerimonioso para uma adoção. Era como uma espécie de audiência. Conversávamos assuntos diversos procurando amenizar o clima de tensão. Falávamos baixo porque o som se propagava facilmente no ambiente silencioso.

Finalmente, dois homens e uma mulher adentraram a sala. O Juiz, uma vez identificado, pela assistente, pareceu-me extremamente jovem. O outro homem, mais velho, era uma espécie de auxiliar, pelo que pude concluir, e a mulher, uma senhora já de certa idade, a escrivã. Tomaram suas posições e iniciaram os trabalhos. Aquilo se transformou em um verdadeiro depoimento.

O Juiz, após as perguntas normais de identificação e alguns detalhes técnicos, passou a questionar se já havíamos estado no hospital, se tínhamos conhecimento das despesas, quem havia informado sobre elas, etc., etc., etc.

Obtinha as respostas de minha parte, nas quais eu procurava não comprometer ninguém, e as ditava para a escrivã juntamente com algumas colocações.

Assim foi toda a audiência. Tensa. Ficou-me a impressão de que o Juiz queria usar o depoimento para alguma finalidade, talvez contra o hospital.

Saímos do Juizado e não sabíamos mais o que pensar. Havíamos recebido instruções para aguardar a conclusão do processo na manhã do dia seguinte.

Não preciso dizer que o restante do dia e a noite se passaram lentamente, e agora com muita apreensão, afinal não tínhamos recebido uma resposta afirmativa sobre o processo.

Será que perderíamos a menina por algum motivo daqueles que não têm explicação?

Manhã de sexta-feira. Levantamos bem cedo.

Não havia como permanecermos deitados.

Tomamos o café no hotel e resolvemos aguardar até aproximadamente 8:30 horas para mantermos um contato telefônico.

Enfim 8:30 horas da manhã. Entendemos que a hora havia chegado e, com enorme nervosismo, telefonamos para a assistente social para dela recebermos a tão esperada resposta:

_ Liberado!

Foi a palavrinha mágica que tirou um enorme peso de nossos corações.

Tantas coisas haviam ocorrido em tão breve espaço de tempo, que pensei até que fôssemos perder a criança como uma forma de castigo pelo meu procedimento com o Vítor. Mas, felizmente, tudo acabou por dar certo.

Muitas providências teriam que ser tomadas e, assim que recebemos o sinal verde, dirigimos-nos ao Juizado para as formalidades legais, ou seja, a chamada papelada.

Enquanto tudo era providenciado fomos ao hospital, munidos da autorização oficial do Juizado, para fazermos a retirada da criança.

Rosinha ficou com ela, fazendo a troca de roupa, e eu fui tratar dos acertos financeiros.

Primeiramente, por telefone da recepção do hospital, acertei com a médica, deixando um cheque com uma funcionária conhecida dela.

Após isto tive que negociar o pagamento das despesas do hospital, o que foi mais difícil devido a posições mais intransigentes da diretora. Mas chegamos a um acordo.

Pronto! Finalmente a criança com seus novos pais foram para o Juizado para os últimos acertos e uma despedida emocionada com a assistente social que tanto nos apoiara. Gratos!

Retornamos ao hotel, não sem antes comprarmos alguns mantimentos para o nosso retorno a São Paulo. Tudo rápido.

Almoçamos e fizemos o encerramento da conta. Por volta das 13:00 horas já estávamos no ônibus com destino à Curitiba, de onde partiríamos de avião para São Paulo no dia seguinte.

Outra viagem longa, mas desta vez bem diferente, a felicidade nos acompanhava, e se chamava Amanda.

Por volta das 22:00 horas chegamos à Curitiba onde, conforme previamente combinado, Márcio, o primo de Rosinha, nos aguardava na rodoviária.

Acolheu-nos em sua casa naquela noite extremamente fria mas quente em nossos corações.

Márcio e Bel, sua mulher, sempre nos deram todo o apoio e ajudaram nos dois processos, tanto no do Gabriel como no de Amanda de quem se tornaram padrinhos.

No dia seguinte, sábado, Márcio e Bel levaram-nos ao aeroporto. Lá acabamos tendo alguns problemas para embarcar. A administração do aeroporto quis confirmações sobre a situação da Amanda, provavelmente procurando averiguar se não se tratava de roubo de criança. Finalmente, após a liberação e despedidas pudemos viajar de volta ao nosso lar.

Nosso apartamento estava cheio de gente. Sabiam de nosso retorno pois sempre procuramos manter minha sogra informada. Parentes e amigos fizeram uma calorosa recepção ao mais novo membro da família.

Só o irmãozinho, Gabriel, demonstrou um certo ciúme, o que não poderia deixar de ser, afinal ele não era o centro das atenções naquele momento.

Por algum tempo continuei achando que não amaria minha filha tanto quanto ao Gabriel, mas isto foi passando e o amor por ela se instalou definitivamente em meu coração.

Agora éramos quatro. Eu, Rosinha, Gabriel e Amanda.

Éramos, enfim, uma família que, como qualquer outra, iria seguir o seu destino com acertos e desacertos, mas feliz porque acima de tudo aqueles eram nossos, os nossos filhos.

 

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Pouco mais de dois meses haviam se passado quando, numa tarde de um dia qualquer no escritório, me passaram uma ligação telefônica inesperada:

_ Alô! Atendi o telefone.

_ Quem fala, por gentileza? Perguntou-me uma voz feminina.

_ Aqui é o Leandro.

_ Leandro Miguel?

_ Sim, pois não?

_ Aqui é do Juizado de Menores de Blumenau e quem fala é a assistente social. O Sr. enviou uma ficha para adoção e surgiu uma criança disponível. O Sr. gostaria de conhecê-la?

Não. Não quis a criança. Agradeci e desliguei.

Já tínhamos dois filhos e entendi que deveria deixar esta nova criança para um casal que, como nós no passado, ansiava por um bebê, ansiava por ser feliz.

 

 

XII - Renúncia


 

O que dizer delas, as mulheres que entregam seus filhos para adoção?

Que motivos passam por suas cabeças e que sentimentos por seus corações? Que definição pode se dar a este gesto?

Mais uma vez confesso não ter capacidade para responder estas questões ou escrever alguma coisa que possa se aproximar deste complexo assunto.

Posso, apenas, relatar fatos que presenciei e que marcaram muito toda esta trajetória. Fatos tristes mas importantes para uma reflexão, não para um julgamento, até porque, no fundo a meu ver, são pessoas que, em muitos casos, merecem até admiração por um gesto de renúncia, de sacrifício, que acaba por beneficiar outras pessoas que não tiveram a ventura de gerarem os seus próprios filhos.

Tudo aconteceu naquela manhã em que tivemos a tal entrevista com a psicóloga que nos falou sobre filhos da barriga e filhos do coração, e que acabou sendo o ponto inicial para o desenvolvimento de toda esta história e, por conseguinte, do próprio livro.

Estávamos eu e Rosinha sentados em um dos bancos existentes em uma espécie de área livre que servia de local de espera do Juizado de Menores de Curitiba.

Aguardávamos ansiosos pela entrevista e até um pouco tensos, já que normalmente os processos legais contribuem para este estado de coisas.

Conversávamos pouco, fazendo algumas considerações sobre a entrevista que se seguiria e alguns planos para o futuro daquele que viria a ser o nosso primeiro filho.

A alguns metros dali, entretanto, uma conversa chamou a nossa atenção pelas palavras mais duras que passavam a ecoar no ambiente.

Voltei discretamente a minha cabeça em direção à cena que ocorria em uma espécie de "box de atendimento", e que ficava um pouco recuado, em posição lateral ao banco em que estávamos sentados.

Pude ver uma pequena mesa, dessas de escritório, a um lado da qual havia a figura de uma jovem assistente social e, do outro, duas mulheres aflitas passando por um momento decisivo.

Uma destas mulheres aparentava os seus cinqüenta anos, magra, cabelos claros e traços bem marcados em um rosto típico de pessoas de vida difícil e de trabalho duro como, por exemplo, os lavradores e trabalhadores braçais.

A outra, bem mais jovem, com os seus vinte anos, tinha os cabelos longos e mais escuros. Seus traços eram suaves e estava vestida de maneira muito simples assim como a primeira.

Nos braços da jovem, devidamente aninhado e dormindo, um bonito bebê que transmitia aquela paz tão característica de seus rostinhos, além de aparentar boa saúde e bons tratos.

Presumi que as mulheres fossem mãe e filha e que ali estavam para a triste missão de entregar a criança para a adoção.

Não pude deixar de pensar que a tristeza e angústia de uns convivia a poucos metros com a ansiedade e alegria de outros. Enfim...

A conversa era muito difícil entre as três mulheres. A assistente social, representando o Estado, parecia-me uma pessoa fria e que estava ali apenas para o cumprimento do dever. Suas palavras eram secas e revelavam uma certa impaciência, dessas muito comuns quando se quer terminar rapidamente uma tarefa.

As duas mulheres, mãe e filha, não entravam em um acordo sobre a entrega da criança, já que a moça demonstrava em suas palavras e semblante um profundo arrependimento. Sua mãe, entretanto, estava muito determinada em encerrar o assunto, assim como a própria assistente social, e entregar logo a criança. Sua fala era forte e decidida:

_ Você tem que entregar. Não dá p’ra ficar com ele. Entrega e vamos embora.

_ Deixa eu pensar mais um pouco, eu não sei, retrucava a moça.

_ Mas você já assinou os papéis. Agora entrega, insistia a mãe.

Os papéis provavelmente deveriam ser os da cassação do pátrio poder que disponibilizam a criança para a adoção.

De repente, a moça se volta para a assistente social e faz uma pergunta que revelava todo o seu desespero:

_ Eu vou poder ver meu filho quando eu quiser?

A resposta veio proferida como uma sentença:

_ Não. Uma vez entregue nunca mais você verá seu filho. Ele não será mais seu.

A moça recebeu o impacto daquela resposta e ficou imóvel, sem reação, como que se sobre ela houvesse sido desferido um golpe violento.

Parecia aturdida, sem acreditar que aquilo estivesse acontecendo, sem muita consciência daquele momento que marcaria toda a sua vida.

Provavelmente já havia decidido anteriormente por isto, mas agora, ali no minuto final, não sabia bem o que fazer e o que estava acontecendo. Era aquela sensação estranha como de um sonho mau, aquela sensação de vazio em que não somos donos da situação, se assim é que tenho o direito de comparar.

Mas aquele momento era único, era duro demais para o seu coração ainda jovem e ela tinha que se decidir. Os olhares de sua mãe e da assistente pressionavam a sua decisão.

A moça permanecia imóvel e sem palavras. Lançava olhares para o filho e talvez pensasse que aqueles poderiam ser os últimos, talvez quisesse armazenar em sua memória a última lembrança dele, daquele bebê aconchegado em seu colo, seu filho, alheio a tudo, mas que também estava com um destino a ser determinado.

Finalmente, diante de toda a pressão, e num lento movimento, entregou o filho à assistente social.

Levantou-se, confusa ainda, e retirou-se também lentamente em companhia de sua mãe.

Voltava insistentemente a cabeça para trás procurando as últimas imagens da criança, agora não mais sua. Não chorava, pelo menos não que eu notasse. Sua face assumia uma expressão meio abobalhada, própria dos boxeadores recém nocauteados, e ela prosseguia em sua dor que era perceptível. Tudo aquilo agora era contra a sua vontade mas assim tinha que ser e foi.

Ela era jovem e decidiram por ela. Encerrava-se um triste capítulo de sua existência.

Assim foram estes fatos, e eles me fizeram acreditar que, sinceramente, uma boa parte, talvez a maioria destas mulheres, não queira entregar o seu próprio filho para uma adoção.

Não é de sua natureza este tipo de ação.

Forçadas por circunstâncias várias elas acabam por ceder, mas a um preço muito caro, o preço da consciência, do remorso, da amargura, da tristeza.

Há casos em que elas, mães solteiras sem a mínima condição de criarem seus filhos, por estarem abandonadas e marginalizadas pela sociedade, acabam por entregar seus filhos, mas só após não poderem sequer amamentá-los pela falta de leite em seus peitos.

Não consigo imaginar o sentimento dessas mulheres, o seu inconformismo e a sua resignação.

A mulher traz dentro de si o instinto de proteção de seus filhos. Quantos não são os casos em que elas tomam a frente da família para prover o sustento dos seus? Sacrificam-se, acabam com sua própria saúde e tudo por eles, os seus filhos.

Renunciar o próprio filho pode parecer um ato de fraqueza, mas em muitos casos pode ser um ato de amor onde ela, com todas as adversidades, conclui que seu filho poderá ter uma vida melhor longe dela, mas para sempre dentro do seu coração.